A Ordem Cisterciense

  O movimento cisterciense foi promovido, em 1098, por Roberto de Champagne, abade de Molesme na Borgonha, seguido por um grupo de vinte e um monges que haviam abandonado o seu mosteiro para realizar plenamente o ideal de vida proposto por São Bento. O abade Roberto, de espírito aberto e corajoso, havia fundado, em 1075, a abadia de Molesme em condição de extrema pobreza. Logo em seguida, porém, pelas generosas doações do duque de Borgonha e do conde de Troyes, a abadia passou de uma rigorosa pobreza a um estado de riqueza e de prestígio a ponto de ser escolhida, em 1084, sede de assembléias feudais, permanecendo envolvida e empenhada nos afazeres da sociedade do tempo. Os ânimos mais sensíveis condenavam a situação e desejavam o retorno ao espírito genuíno da Regra de São Bento. Roberto escolhe como nova sede o lugar solitário chamado Cistercium (Cister, o qual deu a denominação, posterior, de Cistercienses), hoje Cister, e em absoluta solidão instaurou com os co-irmãos um teor de vida, de oração, em espírito de pobreza e na ascese de um duro trabalho manual, restabelecendo o são equilíbrio entre oração e trabalho, que em Molesme foi fortemente alterado. O retorno a puritas (pureza) da Regra de São Bento não significou para eles um apego a um literalismo insipiente, mas o esforço de atingir nela o ideal evangélico fundamental: a procura de Deus através da oração e do trabalho.
Junto a Roberto, muito contribuíram para o bom êxito do movimento cisterciense, Alberico e Estevão, considerados co-fundadores da Ordem.
Alberico obtém a concessão da proteção apostólica sobre Cister do papa Pascoal II com a bula Desiderium quod, de abril de 1100, que assegurava ao Novo Mosteiro absoluta independência de Molesme: “Ordenamos que o lugar que haveis escolhido como habitação em vista da paz monástica seja livre e ao abrigo de qualquer moléstia, da parte de qualquer pessoa, reconhecido como abadia e seja submetido sob à proteção da Sé Apostólica, salva a reverência devida à Igreja de Chalon”.
Estevão se preocupou em conservar o espírito de renovação cisterciense, promovendo disposições a respeito da salvaguarda da pobreza e da quietude monástica. Ele assegurou, sobretudo, a união e a concórdia entre as abadias, substituindo a subordinação feudal pela liberdade na caridade e no princípio de subsidiariedade. Estas disposições foram escritas por Estevão em um documento-base chamado Charta Charitatis, (Carta da Caridade) talvez a primeira carta constitucional européia: “Consideravam que o documento devesse ser denominado Carta de Caridade, porque o estatuto, rejeitando todo peso de exaustão, busca unicamente a caridade e o bem das almas seja nas coisas divinas ou naquelas humanas”.
A impostação de severa austeridade não favorecia o incremento da comunidade, por isso se temia a extinção gradual de Cister. Logo, porém, a comunidade foi tomada por um clima de desconfiança com o ingresso de Bernardo de Fontaine e de outros trinta nobres de Borgonha que fez reflorescer as esperanças e assinalaram o início de uma rápida expansão que causou, no breve arco de três anos (1113-1115), a fundação das abadias de La Ferté, de Pontigny, de Clairvaux e de Morimond que, por dignidade, foram consideradas, a exemplo da Igreja primitiva, abadias de primogenitura e formaram, junto com Cister, as cinco proto-abadias, cabeça das respectivas cinco ramificações que, depois, se estenderam por toda a Europa.
Os Cistercienses deram amplo desenvolvimento à economia agrária e organizaram trabalhos de bonificação com técnicas às vezes também originais, como as macerações na Lombardia, para incrementar a produção. Nestas terras bonificadas eles edificaram as suas abadias por nomes compostos com repousantes adjetivos adornativos que, com transparente e imediata referência à vida espiritual, criam uma sensação de luz, de fresquidão, de brilho, de perfume: Aiguebelle, Fontfroide, Bonneval, Clairmont... Ao mesmo tempo a mística de Bernardo adquiriu, aos poucos, uma ressonância particular, que presidiu também, na medida do possível, a escolha do lugar, o termo vale acompanhado muitas vezes pelo adjetivo claro, são, bom, reluzente, áurea, bela, real e, para algumas abadias de monjas, das rosas, dos lírios, das graças... A literatura romântica, influenciada pelo rigorismo jansenista, procurou creditar à espiritualidade cisterciense uma visão morbosa e pessimista da natureza humana. O cisterciense Gilberto de Hoyland ao contrário colocou, explicitamente, o acento sobre o influxo que a beleza do ambiente pode exercer sobre o espírito: “O lugar escondido e denso das árvores, irrigado e fértil, e o vale coberto de mato que a primavera ressoa do canto dos pássaros, novamente dão vida ao espírito que morre, liberam a alma que enfraquece pelo cansaço e tornam sensível o coração duro e sem devoção”.
Os monges cistercienses contribuíram profundamente na obra de civilização cristã da Europa com as suas fundações, com as obras de colonização, com técnicas avançadas em agricultura e no exercício das várias indústrias. Eles semearam com mãos cheios os benefícios da caridade sobre a população que vivia à sombra dos seus mosteiros com a realização de hospitais, asilos e obras de caridade. Contribuíram muito para o avanço da classe rural na Idade Média.
Com a aplicação dos seus princípios espirituais, na construção dos mosteiros, os cistercienses imprimiram na arquitetura religiosa um caráter de força, de grandeza, de simplicidade que fortemente contribuiu para o nascimento e para o desenvolvimento da arte gótica a ponto de merecerem o apelativo de missionários da arte gótica.
Logo depois do cisma de Anacleto, por vontade do Sumo Pontífice Inocêncio II e de Eugênio III, a abadia de Casamari esteve incorporada com derroga aos estatutos da Ordem Cisterciense e que no final da primeira metade do séc. XIV em um profundo trabalho de testemunho eclesial à vida da Igreja e à promoção humana no centro meridional da Itália. O documento que contém um louvor mais belo se encontra no testemunho de uma antiga crônica verolana: “Se qualquer um, seja qual for o tempo, chegar a Casamari teria se admirado com o lugar, lugar este venerado como paraíso dos monges e comparado como coro de anjos em corpo mortal... É, portanto, neste mosteiro, coluna da Igreja verolana, orgulho de seu povo, fundamento de todo bem comparado com a elegância e a beleza celeste”.
Como fortalecimento da monarquia na Europa e, sobretudo com o mal avignonense (1305-1377) e com o grande cisma do ocidente (1378-1417), se desencadeou uma crise geral nas instituições eclesiásticas e na qual foram envolvidas também as ordens religiosas. As Abadias cistercienses que eram sustentáculo no tempo das cidades como representantes de uma forte idealidade democrática e de uma profunda exemplificação de vida cristã, tornaram-se prejudicadas dentro da vitalidade social, pois perderam os bens materiais e o prestígio espiritual.
O mosteiro de Casamari sofreu um grave dano, no início do ano 1400, quando Ladislau d’Angiò, depois de ter tomado Veroli, invadiu e saqueou a Abadia.
Em 1417 o capitão Muzio Attendolo Sforza, a serviço da rainha Giovana II de Napole atacou as tropas de Jacó de Caldora, conde de Mondriso do braço de Montone que até então estavam fechados dentro do mosteiro; no combate ficou gravemente ferido. Podemos dizer que além da guerra, o ponto mais triste e que foi responsável pela queda não somente da abadia de Casamari, mas de outras, foi à instituição da Comenda. Casamari de Martinho V em 1430 assegurava uma renda plena, mas de um título sem autoridade verdadeira e própria. O comendatário, se limitava apenas a pegar os bens da vida monástica sem se preocupar com o governo da comunidade, sua manutenção e sustento dos monges.
Em 1623, a comunidade é reduzida a um número de oito religiosos e com isso se agregam a outras abadias da congregação romana.
Em 1717, com o interesse do comendatário Annibale Albani, foi introduzida na Abadia a reforma trapista; uma observância cisterciense mais rigorosa; depois de definitivamente aprovada, abrem-se discussões dentro e fora da ordem, com os dois breves papados de 2 de agosto de 1677 e de 23 de maio de 1678: com isso um grupo de monges do mosteiro de Buonsollazzo na Toscana, reformado em 1703, toma posse canonicamente da Abadia de Casamari.
Durante a invasão de Napoleão na Itália, alguns soldados franceses de retorno a Napoli resolvem passar na Abadia, mesmo com a boa acolhida do prior Simon Cardon, saquearam a mesma em 13 de maio de 1799 e profanaram a Eucaristia. Alguns monges conseguiram se salvar, porém seis, entre eles o prior, foram assassinados no momento que recolhiam as sagradas espécies. Por isso são chamados “mártires da Eucaristia” e estão sepultados na igreja.
Em 1823 a comunidade de Casamari retoma para si o Mosteiro de São Domenico, próximo a Sora, e em 1864, o mosteiro de Valvisciolo próximo a Sermoneta (LT), restaurado a pedido do papa Pio IX.
Em 1873, com a norma de supressão a Abadia fora privada de seus bens e no ano seguinte declarada monumento nacional. Os monges, temendo a expulsão como já havia acontecido depois da supressão de Napoleão (13 de setembro de 1811), construíram um prédio próximo a Abadia e que se tornou, a princípio, seminário e depois sede do instituto paroquial São Bernardo.
Casamari não obstante as vicissitudes em comparação a outras raras Abadias cisterciense onde, a vida monástica nunca esteve interrompida desde a fundação exceto nos anos de 1811/ 1814.
Referindo à vida religiosa, obteve um favorecimento da instituição dos seminários (1916). Com isso, em breve tempo, começou a receber muitos jovens que buscavam um ideal monástico, tanto é que em 1929 foi declarada pela Santa Sé casa independente e sede da congregação monástica que leva o seu nome.